Teoria do hábito em 21 dias: verdade ou mito?

Possivelmente você  já escutou por diversas fontes de que é possível mudar um hábito com apenas 21 dias, incluindo “hábitos” mais complexos como o de se exercitar regularmente. É algo realmente promissor, principalmente  se vier acompanhado por apelos de rapidez e facilidade.  Não é à toa que  a disseminação desta informação já levou muita gente a se sentir fracassado por não ter sido capaz de criar o hábito de se exercitar em tão pouco tempo. Por este motivo, quero trazer para você algumas informações validadas cientificamente de que, embora exista a  possibilidade de que se consiga adquirir  hábito em tempo record, não é o que acontece para a maioria das pessoas. De onde veio então essa teoria? Ela é creditada ao médico Maxwell Maltz na década de 1950 em seu trabalho com pacientes amputados, o qual observou em que os mesmos mostravam que começavam a se “habituar” com a perda de seus membros em torno de 21 dias, ou seja, suas descobertas se baseavam em suas experiências e não em evidências científicas.

Do ponto de vista da neurociência, é importante lembrar que nosso cérebro está sempre buscando maneiras de “poupar” energia e, por isso, criar um novo hábito é dispendioso. Outro aspecto que precisa ser considerado é a singularidade de cada pessoa, ou seja, por mais tentador que seja a ideia de criar um hábito em 21 dias, precisamos considerar que existem variáveis do contexto (rede de suporte, acesso/distância etc) e individuais (características de personalidade, outros hábitos já consolidados) que influenciam neste processo.

A fim de esclarecer cientificamente quanto tempo levamos para estabelecer um hábito, a pesquisadora Phillippa Lally e colaboradores da University College London em um estudo publicado em 2009,  fizeram um estudo com 96 voluntários em que eles deveriam desenvolver um hábito no mesmo contexto que relacionado a alimentação, bebida ou atividade, os quais fossem realizados diariamente. Os pesquisadores  chegaram a algumas conclusões: 95% automatizaram o comportamento entre 18 e 254 dias.

Diante dessas informações, vamos ao que podemos fazer com elas. Primeiro, libere-se da obrigação de “ter que gostar” de se exercitar, pois sempre que começamos com uma sentença “tenho que” ou “deveria” acionamos um mecanismo poderoso de resistência inconscientemente. Por outro lado, abra espaço na sua mente para “conhecer” diferentes tipos de exercícios, observando o que você pensa (crenças), o que você sente (emoções) quando pensa enquanto se exercita e o que você faz (comportamento).

Observe se está automaticamente acionando um “sabotador” determinado a não gostar de nada. Por isso mesmo, procure não se comprometer com um compromisso anual ou semestral, pois poderá ser usado contra você como uma profecia “autoreveladora”, sabe aquele discurso interno: “eu já sabia que daria errado”, “tentei de tudo até me matriculei no plano anual”, ou seja, embora no dia da matrícula sua intenção fosse a de se comprometer, o hábito ainda não está consolidado e, portanto, o fato de já ter se matriculado lhe dá o “direito” de começar a faltar por dias ou semanas, até desistir completamente. E se vier a desistir, você usará tal fato para reafirmar a crença de que não consegue ou não gosta mesmo de nada.

Outro elemento crucial é começar estabelecendo para você mesmo algo razoável, como por exemplo, começar a treinar em duas ou três vezes na semana no primeiro mês e,  se você ainda não acredita que pode desenvolver o novo hábito sozinho, peça ajuda de um profissional especializado. E não menos importante: se dê o direito de faltar, pois outro grande “sabotador” é a máxima “não posso faltar”, gerando ainda mais a tentação de faltar. Em vez de se obrigar a se exercitar, faça a si mesmo um convite firme: eu posso faltar, mas será muito bom perceber que fui capaz de ir de mesmo “querendo” faltar.

Adna Rabelo – Psicóloga

CRP 05/48233

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