Em busca do corpo perfeito – custe o que custar!

Basta passar alguns minutos pela web para constatar que estamos, enquanto sociedade, buscando a felicidade a qualquer custo. Ao que parece, o fenômeno das redes sociais veio para ficar e tem potencializado essa busca, seja possibilitando em tempo real que se possa comparar nossa grama com a do vizinho, seja permitindo o acesso a pessoas que vivem realidades muito diferentes (cultural, econômica, social) da nossa. Além disso, temos assistido o que pensador polonês Baumam chamou de “modernidade líquida”, ou seja, nada hoje é feito para durar. Podemos viver o efêmero em sua plenitude e, neste processo, o “corpo biológico” (produtor) tem dado espaço para “corpo sociocultural” (consumidor).

O corpo sociocultural é aquele perfeito, cumpridor do seu papel de objeto de desejo, e até mesmo o “passaporte” para o clube da felicidade. Tudo parece muito fácil e acessível. Os grandes mestres-salas têm sido as blogueiras e celebridades fitness que sabem encarnar um ideal de eu a ser seguido e que pode ser alcançado através da disciplina de exercícios rigorosos, hits do momento, dietas light, low carb ou qualquer outra que prometa resultados mais rápidos. Não importam as singularidades. É uma questão de estar disposto a vencer a si mesmo, quase que uma obrigação moral. Tudo isso para fazer parte do Clube da Felicidade, quem ousaria recusar? Muita gente é capaz de se submeter a tratamentos e soluções fáceis ainda que eles gerem prejuízos à saúde física e mental. Isso porque adotar um estilo de vida mais saudável requer muito esforço, inclusive o de se perguntar o que é saudável para si mesmo diante de tantas informações controversas e plurais.

Do que tenho visto como psicóloga atuante na área clínica, a relação entre felicidade e corpo tal como vem sendo anunciada, na prática, tem contribuído para a infelicidade das pessoas, além de ter potencializado a exacerbação de diversos transtornos, como a anorexia e a bulimia. Alguns deles, como vigorexia e ortorexia, ainda estão em processo de reconhecimento da comunidade científica. O grande desafio é construir uma relação mais saudável com seu corpo, aceitando suas imperfeições. Além disso, é possível perceber que construir uma vida mais feliz é bem mais complexo do que conquistar um corpo perfeito, ainda que por algumas semanas ou meses. É preciso lembrar que nosso corpo é também biológico e busca se regular continuamente (homeostase). Assim, tudo que ocorre rápido, o corpo reage como uma ameaça que ele precisa combater.

Adna Rabelo

Psicóloga CRP: 05/48233

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